• Non ci sono risultati.

CAPÍTULO II Tradução de O Karaíba: uma história do pré-Brasil 48

III.2 Desafios da tradução 128

III.2.2 Questões estilísticas 135

O estilo do autor em uma tradução literária representa sempre um desafio para um(a) tradutor(a) porque o público-leitor não profissional, como afirma Lefevere (2007, p. 24), lê cada vez menos os textos originais e cada vez mais as obras reescritas, como as

134

traduções. Os(as) leitores(as) desejam ler as obras escritas em um idioma que não dominam como se fossem os originais e, mais ainda,

para leitores que não podem checar a tradução com o original, a tradução, simplesmente, é o original. Reescritores e reescrituras projetam imagens da obra original, do autor, da literatura, ou da cultura, que sempre impactuam muito mais os leitores do que o original faz (LEFEVERE, 2007, p. 177-178).

No processo tradutório é inevitável que haja perdas no texto de chegada; de fato, conforme observa Umberto Eco (2019, p. 93), traduzir significa sempre “limar” algumas das consequências que o termo original implicava e é por essa razão que quando se traduz nunca se diz (exatamente) a mesma coisa. Portanto, o(a) tradutor(a) precisa escolher quais características deve tentar recriar na sua reescrita e, sem dúvida, como afirma Britto (2012, p. 51), uma delas é o estilo do autor que deve ser reproduzido na obra traduzida.

Se, por exemplo, o estilo de um(a) certo(a) autor(a) é caracterizado por sua complexidade sintática, esta tem que ser respeitada na tradução.

No caso de Daniel Munduruku, o estilo do autor é simples, caracterizado por frases breves, termos simples e próximos da oralidade. Além disso, ocorrem repetições de algumas palavras e expressões na mesma frase ou em frases próximas, como se pode verificar nos exemplos abaixo:

Perna Solta ficou encabulado com as palavras do velho e recolheu-se a seu canto, enquanto assistia ao velho acender novamente seu surrado cachimbo (MUNDURUKU, 2018, p. 15, grifo nosso).

Gamba Lesta si imbarazzò per le parole dell’anziano e si ritirò nel suo angolino, mentre guardava l’anziano accendere nuovamente la sua vecchia pipa (tradução nossa, p. 55).

[...] Mas eram sonhos confusos e que não diziam com clareza o que iria acontecer de fato. Eram apenas sinais, traços, pistas. O restante eram expectativas.

- Por que não podiam esperar os acontecimentos aqui mesmo, minha avó?

- Quando o que vai acontecer é o pior não se deve esperar. [...]

(MUNDURUKU, 2018, p. 54, grifo nosso).

[...] Ma erano sogni confusi e che non dicevano con esattezza quello che sarebbe di fatto accaduto. Erano appena segnali, tracce, indizi. Il resto erano aspettative.

- Perché non potevano aspettare lo svolgersi degli eventi qui, nonna?

- Quando quello che deve accadere è il peggio, non si deve aspettare. […]

(tradução nossa, p. 78).

No que diz respeito ao primeiro exemplo, na hora de traduzir para o italiano, duas opções foram tomadas em análise: primeiro, a possibilidade de traduzir as duas

135

ocorrências da palavra velho com os sinônimos vecchio-anziano. A segunda opção, considerava a hipótese de deixar a repetição também no texto de chegada, mesmo que parecesse redundante. Afinal, decidiu-se deixar a repetição da palavra anziano, assim como no caso do texto-fonte. De fato, como afirma Eco, um dos riscos que correm algumas traduções é o de enriquecer o texto-alvo, eliminando termos redundantes ou tentando elevar o registro linguístico utilizado: “Una traduzione che arriva a dire di più potrà essere un’opera eccellente in se stessa, ma non è una buona traduzione” (ECO, 2019, p. 110, grifo do autor). Como já dissemos, o estilo de Daniel Munduruku se aproxima da oralidade e, efetivamente, quando falamos as repetições são muito frequentes; além disso, nas narrativas de literatura infantojuvenil, “the pleasure of repetition and similarity is based on a hypnotic effect” (OITTINEN, 2000, p. 20). Por esses motivos, optou-se por deixar a repetição de algumas palavras no texto de chegada assim como ocorre no texto- fonte.

Em relação ao segundo exemplo, em três frases seguidas aparecem duas vezes o verbo acontecer e uma vez o substantivo plural acontecimentos, que se forma por derivação sufixal a partir do particípio passado do verbo acontecer. Também neste caso foram tomadas em análise várias opções: primeiramente, a possibilidade de traduzir acontecer com accadere e utilizar na tradução dois sinônimos, accadere-succedere.

Porém, como no caso do primeiro exemplo, optou-se por deixar a repetição do verbo accadere para respeitar no máximo possível o estilo do autor e as suas escolhas no texto original. Diferentemente, no que diz respeito ao substantivo acontecimentos considerou- se não apropriada a tradução accadimenti, mesmo tratando-se de um substantivo derivado do verbo accadere. Esta escolha se deve ao fato de accadimenti ser uma palavra mais formal do que a palavra acontecimentos em português e, por esse motivo, na língua italiana foi empregado o substantivo plural eventi que costuma ser utilizado frequentemente na oralidade, sendo mais informal do que accadimenti. Este último, de fato, é mais utilizados nos textos escritos do que na fala. A esse respeito, Britto afirma:

[...] A todos aqueles elementos do texto original que um leitor nativo consideraria convencionais e normais devem corresponder, na tradução, elementos encarados do mesmo modo pelos leitores da língua-meta. [...] Não cabe ao tradutor criar estranhezas onde tudo é familiar, tampouco simplificar e normalizar o que, no original nada tem de simples ou de convencional (BRITTO, 2012, p. 67).

De acordo com as colocações de Paulo Britto, da mesma forma que se decidiu manter na tradução italiana elementos que resultam “convencionais e normais” para

136

os(as) leitores(as) da língua-meta, foram mantidos também aqueles elementos que resultam “estranhos” para um(a) leitor(a) brasileiro(a). Um exemplo disso são as falas do Karaíba, caracterizadas pela falta de artigos e verbos de cópula:

[…] Vocês devem voltar para lugar certo. Precisam encontrar par perfeito para a menina. Eles irão fazer casamento de guerreiro com menina diferente (MUNDURUKU, 2018, p. 87).

Voi dovete tornare al luogo giusto. Dovete trovare persona giusta per la ragazza. Loro faranno sposare guerriero con ragazza diversa (tradução nossa, p. 100).

Nessa fala do Karaíba faltam alguns artigos, fato que resulta estranho também para o público-leitor brasileiro. Como afirma Honorato “essa convenção tem algo do estereótipo com que o indígena é representado como aquele que não domina a língua portuguesa” (HONORATO, 2020, p. 251). Exatamente por essa razão, na hora de traduzir, surgiram dúvidas em relação à possibilidade de acrescentar os artigos na língua italiana para evitar que o(a) leitor(a) pudesse perpetuar o estereótipo relacionado à falta de domínio da língua portuguesa por parte dos povos originários. Porém, tendo em conta a importância de respeitar o estilo do autor e de reproduzir na tradução um mesmo efeito de estranheza que se produziu no original, decidiu-se omitir os artigos também no texto de chegada. É importante salientar também que o Karaíba é o único personagem do romance que apresenta estas características na sua fala, como se pode notar no diálogo entre o chefe Tupiniquim e o profeta:

- Meu avô está chegando num lugar vazio? Por que está aqui?

- Lugar nunca vazio, chefe dos tupiniquins. Vazio espírito da gente. Vazio corpo que se esconde (MUNDURUKU, 2018, p. 87).

- Mio nonno sta arrivando in un luogo vuoto? Perché è qui?

- Luogo mai vuoto, capo dei tupiniquins. Vuoto spirito della gente. Vuoto corpo che si nasconde (tradução nossa, p. 99).

Portanto, como se trata de um caso único no romance, considerou-se a falta dos artigos uma característica que o próprio escritor atribui ao Karaíba e uma marca estilística do autor que deve ser reproduzida na tradução. O jeito diferente de falar do Karaíba poderia marcar a excepcionalidade da sua figura de profeta itinerante, destacando, por meio das características da sua fala, que há uma diferença entre o profeta e os outros personagens: “por ser o único que assim fala no romance, é possível pensar que a condição excepcional do Karaíba em relação aos demais, sua vida reclusa e errante, é figurada nessa diferença” (HONORATO, 2020, p. 251).